Noite com seres estranhos

Pescaria de Caboclo

Resolvemos eu e minha esposa fazer turismo em Minas Gerais, nas regiões históricas de Ouro Preto, Sabará, Mariana e, menos conhecida, Barra longa, etc. Ouro Preto, todos já conhecem e as imagens de Aleijadinho são conhecidas e apreciadas em todas as partes do mundo. Realmente, nos enche de orgulho ao ver ao vivo estas obras de arte não só pela beleza barroca, mas pelo impacto que ela nos apresenta sabedores das condições físicas do autor. Das Igrejas, nem se fala, suas incrustações em ouro e a delicadeza de suas pinturas nos deixam num patamar de sentimentos que somente quem entra num templo destes e observa com carinho toda aquela arte e como foram feitas nos deixam extasiados. Achamos tudo maravilhoso e já com saudade deste pequeno recanto mineiro, fomos para Mariana, apenas 12 km de Ouro Preto.

Soubemos, como turistas, que sua população tem aproximadamente cinquenta e cinco mil pessoas e pela quantidade de ouro que retirava nos primeiros séculos no julgo português, foi então considerada a pequena Vila como capital de Minas Gerais e oficialmente em 23 de abril de 1745 como cidade de Mariana, por Dom João V de Portugal em homenagem a sua esposa Maria Ana de Áustria. Ainda hoje, tão perto de Belo Horizonte (110 km) ainda é uma cidade com características de séculos passados. Pois bem, resolvi passear nas cercanias desta cidade, com sua topografia de montanhas que propicia formações de bolsões de frio e neblina principalmente ao amanhecer, que me deu a ideia de pescar nos rios próximos com ótimas características de grandes peixes. Ao anoitecer, peguei o material que sempre carrego no carro e arranjando iscas (minhocas) locais me inteirei do melhor lugar para pescar, mas senti certa reticencia dos moradores com quem conversei. Estavam com medo e receio por minha vontade de pescar a noite naqueles ermos, e como bons mineiros, falaram muito pouco, mas no fundo tentaram me alertar para um problema que existia na região. Contaram que várias pessoas tinham visto um ser esquisito na área e que seu Kenedy, morador muito conhecido da cidade, estava pescando na ponte e tinha perdido seu molinete para um bicho arrepiante, que começaram a chamar de Caboclo d’água. Portanto, que eu ficasse de sobreaviso porque o ser estranho além de feio era violento e atacava quando menos se esperava. Achei interessante a estória, mas não é um “fantasma popular” que ia me tirar do sério e deixar de pegar bons peixes por invencionices populares.

A noite chegou e deixando minha esposa no hotel, preparei a parafernália do material de pesca e vendo aquelas minhocas enormes pensei , é hoje que arrebento. Peguei o carro e seguindo o caminho para a localidade de Barra Longa, cheguei até a ponte tão decantada pelas aparições. Parei um pouco a frente e com aquela lua cheia maravilhosa, não tive problemas para preparar a vara e colocar as iscas, desci para a areia próxima ao rio e me preparei para a “festa”. Joguei a linha n´água e com aquele som característico da noite em que sapos coaxavam e grilos anunciavam sua presença no seu grilar também característico, esperei pela batida. Que tranquilidade, o frio estava como diria “ao ponto” e tudo corria bem. Não passou muito tempo e a vara embodocou. Senti o peixe carregando linha e pronto, à adrenalina subiu e pela força devia ser um teba. Ao trazê-lo depois de uma luta incrível, (até parece que peixe do rio é mais forte que peixe do mar) vi aquele espécime lindo saindo d´água e com a luz da lua apresentava-se prateado e pelo tamanho no mínimo uns cinco quilos. Foi quando senti uma presença atrás de mim e ao me virar vi exatamente como falado o tal do Caboclo d’água. Os pés achatados como pés de pato, extremamente forte com uns 1,20m de tamanho com as mãos em garra e a boca enorme com dentes que brilhavam ao luar e com olhos grandes que me olhavam intensamente. Fiquei parado e senti alguma coisa de humano e diferente neste contato. Ele desviou o olhar para o peixe e senti que ele estava afim do dito. Devagar me abaixei e pegando aquele exemplar para ninguém colocar defeito, o peguei e passei para o tal do Caboclo d’água, que naquele momento me pareceu mais um ET. Lembrei então de uma pescaria em Itaúnas (ES) quando me deparei com um disco voador e agora olhando aquele indivíduo achei, não sei por que, ele me reconheceu, porque sem demonstrar nenhuma ação de ataque simplesmente pegou o peixe e desapareceu no mato. Fiquei perplexo, não sabia se ia embora ou pescava mais. Como não fui atacado e o tal do Caboclo tinha ido embora com o peixe, resolvi pescar mais um pouco. Não deu nem uma hora e tinha faturado uns cinco piaus grandes e alguns cascudos. Já me preparava para ir embora quando me deparo novamente com o ET. Estava acompanhado de mais uns cinco iguais a ele, me rodearam e sentando no chão percebi que queriam que eu fizesse o mesmo. Minha surpresa aumentou quando uma ET, aquilo devia ser uma fêmea pela conformação dos glúteos. Ela pegou, acreditem se quiser, uma panela de barro e colocou no nosso meio com o peixe fumegando e com aquele cheiro característico de moqueca capixaba. Exatamente igual a Itaúnas. Aí percebi que era a mesma turma. Comemos juntos e meio apavorado com a aparência deles acabei me incorporando a “festa”. Após finalização da moqueca se levantaram e sem cerimônia pegaram o resto dos peixes e foram embora. Logo depois, já me encaminhando para o carro, qual não foi minha surpresa quando um baita de um disco voador, igual ao outro que já tinha visto no ES, levantou na minha frente e num passe de mágico sumiu no espaço. Senti que estes ETs adoram um peixe e principalmente dos que pego, pela amizade apresentada acredito que me reconheceram, sabe Deus como. Espero encontra-los novamente em outras pescarias por este Brasil afora. Voltei para o hotel e contei para minha esposa Laci o que tinha acontecido e como sempre “acreditou” e falando tudo bem, tudo bem, encerrou a conversa.

Pela manhã, falei com o dono da pousada que o tal Caboclo d’água tinha ido embora e que tão cedo apareceria por aquelas bandas. Ele não entendeu nada, e dando adeus aquela cidade mineira tão cheia de estórias e com um passado tão glorioso nos despedimos de Minas Gerais retornado ao nosso cantinho a beira mar. Do pescador de caboclos, digo cascudos e piaus Deomar Bittencourt.

Sobre o autor:

Dr. Deomar Bittencourt, atuou como professor de Parasitologia na FAFABES por trinta anos. Atualmente, se dedica às análises técnica e laboratorial no laboratório que leva o seu nome e é referência na Grande Vitória.

 

 

 

 

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