Saiba o que fazer no caso de violência doméstica

A psicóloga clínica Dra. Cristiana Cariola Travassos orienta sobre o que pode ser feito no caso da violência doméstica

Muito temos ouvido falar sobre violência doméstica e de acordo com o art. 5º da Lei Maria da Penha, violência doméstica e familiar contra a mulher é “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.   

Em 2019, foi publicado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que a cada dois minutos era criado um Boletim de Ocorrência em alguma delegacia do país com denúncia de vítima no convívio doméstico. Já no primeiro semestre de 2020, com o advento da Covid-19 os números são ainda maiores.

O jornal Eu Amo Meu Bairro entrevistou a psicóloga clínica Dra. Cristiana Cariola Travassos que fala sobre o que devemos fazer no caso da violência doméstica, como tratar os traumas, entre outras informações importantes sobre o assunto.

Confira a entrevista completa:

EAMB: O que você entende por violência doméstica?

Dra. Cristiana: Violência Doméstica é qualquer ato que fere um dos membros de um grupo familiar. Pode ocorrer dentro ou fora de casa e, no caso da violência contra a mulher, ela pode ser vítima de um (ex)namorado, (ex)marido, amigo que conviva ou não com essa mulher no mesmo espaço físico.

EAMB: Quais são as causas?

Dra. Cristiana: As causas são bastante amplas. As situações de violência contra a mulher ao longo da História é, principalmente, resultado da relação hierárquica estabelecida entre os sexos, principalmente, pela diferença na força física, característica valorizada quando vagávamos pelas planícies da África nos tempos pré-históricos. Os papéis sociais de machos e fêmeas da espécie humana, antes naturalmente estabelecidos para a sobrevivência foram deturpados com a finalidade de instituir a “superioridade” do homem e reproduzi-la através da educação diferenciada. Sendo assim, aos homens, de maneira geral, são atribuídas qualidades referentes ao espaço público, domínio e agressividade. Já às mulheres foi dada a denominação de “sexo frágil”, pelo fato de serem providas de menor força física, por isso mais sensíveis e afetivas, traços que se contrapõem aos masculinos e, por isso mesmo, não são tão valorizados na sociedade. Contudo, os tempos de caça e coleta se passaram e as formas de sobrevivência da humanidade também mudaram. É mais comum que a identidade de uma mulher vítima de violência seja fruto deste padrão familiar de subordinação, onde não questionam as imposições masculinas. Embora constatamos, no momento atual, profundas transformações na estrutura e dinâmica da família, ainda, prevalece o modelo familiar caracterizado pela autoridade paterna e submissão dos filhos e da mulher a essa autoridade.

A maioria das vítimas estão coagidas a um relacionamento baseado, muitas vezes, na dependência financeira e emocional, levando a eventos cíclicos de violência. Vale lembrar que vítimas de violência doméstica não se constituem por um grupo característico, assim, toda mulher pode sofrer nas mãos de seus agressores. Mulheres de classes sociais e econômicas diversas, e de todas as raças.

EAMB: Qual a faixa etária que mais tem acometido a violência doméstica?

Dra. Cristiana: Não há faixa etária caraterística.

EAMB: Geralmente, que tipo de agressor(a) é mais recorrente?

Dra. Cristiana: Os agressores são homens criados em ambientes machistas e é bem comum encontrarmos violência doméstica em suas famílias de origem, fazendo com que esses homens reproduzam o feitio que aprenderam na vida.

EAMB: O que fazer no caso a pessoa sofre violência doméstica?

Dra. Cristiana: A mulher agredida, física, psicológica, moral, patrimonial e sexualmente deve ligar, imediatamente, para o número a Polícia no número 190 ou para o 180 – Disque Violência contra a Mulher. Conforme o ocorrido, o casal poderá ser levado para a delegacia a fim de prestar depoimento. A mulher, em seguida, deve procurar uma delegacia especializada no atendimento à mulher que se encontra no seu município. Chegando lá, deve fazer um BO contra o agressor que não será detido, apenas em caso de flagrante. A delegada irá explicar como deverá agir daqui para frente e orientar caso deseja abrir processo criminal contra o agressor.

Caso necessário, a mulher pode pedir as medidas protetivas de urgência.

EAMB: Como lidar com a violência doméstica?

Dra. Cristiana: A mulher agredida está frequentemente assustada e sua auto estima muito rebaixada, portanto, é necessário um acompanhamento psicológico e, às vezes, psiquiátrico a fim da vítima conseguir lidar com a situação, já que é comum a dificuldade de sair desse ciclo de violência.

EAMB: Todo o tipo de violência doméstica como física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, podem mexer com as questões psicológicas do agredido?

Dra. Cristiana: Sim, todo o tipo de violência atinge a vítima psicologicamente. Sempre digo que a rainha das violências é a psicológica, porque deixa marcas profundas na vida emocional do agredido. No caso da mulher que já sofre violência há algum tempo, a auto confiança e a auto estima estão enfraquecidas e o agressor se utiliza dessas fragilidades para depositar a culpa das agressões na vítima, fazendo com que essa mulher se torne refém desse agressor.

EAMB: Como tratar?

Dra. Cristiana: Na maioria das vezes é preciso algum tempo de psicoterapia para que a mulher consiga sua autonomia de volta. Vê-se a vítima esvaziada psicologicamente, não sabendo mais quem ela é e do que gosta na vida, pois, com os anos, essa mulher foi abrindo mão de seus desejos para evitar as agressões, tendo a ilusão de que, com isso, o ambiente familiar se tornará harmonioso.

EAMB: Que tipo de ajuda a pessoa deve buscar?

Dra. Cristiana: O trabalho do psicólogo é tentar resgatar essa mulher que se encontra perdida e escondida de si mesma. É um trabalho que só o psicólogo tem a competência para realizar. Pastores de igrejas e as comunidades também devem auxiliar de forma complementar.

EAMB: Como detectar a violência psicológica?

Dra. Cristiana: A violência doméstica começa com uma crítica mais incisiva, uma comparação ou qualquer atitude que deixe a mulher se sentindo rebaixada. Com o passar do tempo, as agressões vão se intensificando e tornando-se mais frequentes, até que o agressor se desculpe – é a fase da Lua de Mel. O casal volta a se relacionar harmoniosamente, por pouco tempo, até uma nova agressão: é o que chamamos de ciclo da violência. Caso a mulher não tome providências cabíveis, esse ciclo vai se repetindo até que as agressões se tornem físicas ou, pior, ocorra uma tragédia.

EAMB: A violência doméstica atinge só a mulheres?

Dra. Cristiana: A violência doméstica não atinge só a mulher, mas toda a família. As crianças que presenciam as agressões podem manifestar o sofrimento sendo agressivas com os coleguinhas e apresentando piora significativa no aproveitamento escolar.

Cabe aqui colocar que os homens também são vítimas de uma sociedade machista. Afinal, é ela que cobra deles que sejas másculos, que possam fazer dinheiro suficiente para o conforto da família. Não é permitido que demostrem fraqueza alguma. Esses agressores necessitam de atendimento psicológico a fim de trabalhar sua masculinidade.

Sobre a entrevistada

Cristiana Cariola Travassos, é psicóloga clínica CRP:16-2327, formada em São Paulo pela Universidade São Marcos. Fez Residência Psicológica em Psicologia Clínica e Hospitalar, em Cardiologia pelo InCor da Faculdade de Medicina USP.  No momento realiza seus atendimentos de forma online. Para mais informações sobre a profissional é só acessar o site: www.dracristianactravassospsi.com.br e no instagram @dra.cristianactravassospsi. Contato: (27) 98858-4891

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